A passagem das 'Três Metamorfoses" Nietzche faz seu velho Zaratustra falar sobre as mudanças de espírito e o caminho que se percorre até chegar ao último estágio. Em sua passagem, seu discurso, atribui ao espírito primeiro a condição de camelo, depois leão e ao final a criança. É um texto delicado, que parece não ser possível entender na primeira leitura. Aliás, a primeira leitura é a mais interessante de todas e acaba passando a impressão de que tais metamorfoses são fases comparáveis ao do ser humano. Primeiro como adolescente é o camelo, capaz de desejar o peso para si. Depois o adulto que luta contra os ideais próprios e coletivos para chegar a liberação que, também parece, ser a velhice, na qual o ser humano consegue chegar ao estágio de criança, capaz de esquecer e estar pronta para o reinício.
Esta primeira visão me conduziu até o momento em que as metamorfoses são rompidas, quando seus elementos em si acabam por não mais conduzir a lugar algum e necessita renascer a próxima. Nesse momento fica claro que o camelo não é nobre, é bestial; que o leão é violento e rasga a ideia do dever a custa de seu amor e a criança é apenas o espírito desejando a própria vontade, que perdeu no início do processo e agora busca de volta, em princípio, inutilmente.
Certamente não são fases. O discurso parece ser mais profundo do que isso pela inteligência descomunal do filósofo. Se lhe tocasse falar em fases da vida, avanço da idade e consequencias de atos e desamores, saberia fazer de forma muito mais perfeita do que essa ordem de eventos compreendida entre o camelo e a criança.
Temos por hábito mental, pela filosofia cartesiana, pela matemática ou por qualquer outra contribuição da ciência ou da história entender os fatos sob a régua do tempo. Pensamos que para que haja o número dois, necessita o um e somente haverá o três se antes contarem um e dois. Pensamos que passado está para trás. Futuro para frente. O elemento de maior equívoco, talvez, seja esse. O rigor ao se aferrar a linearidade nos conduz a capacidade de enfrentar o cotidiano de forma previsível ou, em última análise, possibilita a previsão de eventos para na construção de um futuro.
A matemática assim construiu suas bases e lançou por séculos contribuições inestimáveis em todas as ciências. Modernamente, todavia, as relações de causa em efeito, a linearidade, a previsibilidade deixaram de ser resposta para muitas das questões humanas. No próprio campo da física, respostas não foram possíveis no campo das micro e das macro distâncias. O homem ainda se debate sem conhecer as grandes energias, as grandes distâncias, a composição das partículas ínfimas não por que lhe falta capacidade, mas talvez pela falta de ferramentas que significam dizer falta de conhecimento.
Quebrar a barreira da lógica é fundamental para perceber conceitos fugidios, pequenos mais de grande influência no desejo de chegar a explicação plena do evento. As réguas do tempo, necessariamente, precisam ser quebradas por que já não conseguem medir todos os eventos. é preciso deixá-las de lado para entender a magnitude do evento e não, como no Leito de Procusto, tentar espremer a realidade, serrando-lhe as partes, para caber dentro de nossos conceitos.
Nitetzsche propõe três estados de espírito o bestial que representa pelo camelo, o violento na forma do leão e a criança como estágio final que, na verdade, autoriza-me a pensar na compreensão que tive, coexiste com o estágio inicial do espírito. É para onde tudo retorno, depois de tanto ter andado.
Do ponto de vista do camelo existe uma necessidade de carga, não de paz. Seu objetivo é se carregar de modo que seja capaz de provar para si, para os outros, para os valores, para a sociedade, para a tudo que é capaz de ir adianta. Não tem medidas é bestial e talvez por tão bestial não faz sua carga com nada que lhe seja útil. É capaz apenas de carregar o que não lhe serve, o que não lhe proporcionará nenhuma riqueza de alma, nem conhecimento, nem discernimentos. Por isso se abaixa, posição do camelo, para realizar as escolhas que somente lhe causaram a dor e desconforto.
Lotados dessas escolhas, daquela inúteis, que não servem para a melhora mas que conspiram contra ela, vamos nos enchendo até o ponto de que tudo se torna insuportável. A um determinado ponto, todas as escolhas tidas e havidas com bases no que é cobrado, na moral comum, no senso comum. Sua esposa realmente não era a mulher de sua vida, mas era necessário casar. Seu trabalho é lucrativo mas lhe cansa a alma. Suas escolhas pessoais se mostraram pesadas demais para serem mantidas ao longo do tempo. Impossível é manter o padrão de vida, impossível é manter a forma de vida. Somos camelos, nos carregamos demais, e como afirmou Zaratrustra de coisa inservíveis para a alma, mas de algum modo respeitáveis. Precisamos fugir para o deserto, a fuga ou a infelicidade. O camelo já não resolve mais nada por que todas as escolhas anteriores lhe tolheram a força.
É hora de deixar de ser camelo, de ser leão.
Mas o leão é tão bestial quanto o camelo, ambos são metamorfoses sem alma, aonde o espírito assume formas mas continua apanhando. Antes pela carga e agora pela violência. Não há violência sozinha, o dragão surge e é capaz de prontamente esclarecer as coisas 'tu deves'. Mas como é possível manter o padrão do camelo é hora de rasgar tudo. Porém rasgando tudo chegamos na criação da liberdade a custa, ao sacrifício dos valores. Matamos os valores que direcionaram as escolhas e agora temos a liberdade, o problema todo é que a liberdade ficou 'vazia e arbitrária' e assim ficou por que antes as escolhas que agora alimentam o dragão necessariamente dizem que em sua época houve amor irrecusável. Amávamos as escolhas que agora nos mata e matando-a criamos a liberdade sem valores, sem objetivos, vazio e arbitrária e imemorável. Aqui o espírito talvez o espírito esteja enfrentando a maior tormenta de alma que é não poder voltar aliado ao fato de não querer objetivamente voltar. Eram tempos tão sufocantes, tão pesados, sem liberdade de movimento que agora mesmo sem com o vácuo da liberdade, do 'eu' tudo se assimila a terra arrasada, morta e infértil.
Fomos leões tantas vezes.
No fim surge a criança, que é ao mesmo tempo renascimento e esquecimento, a ponto de ser a única capaz de fazer a pergunta básica, sem medo: qual o porquê de tudo isso? Eu enquanto criança andei e hoje volto ao ponto em partir para ver que poderia ter feito tudo, porém de modo diferente? É a pergunta que vai calar fundo, que não vai ter resposta, por que a viagem foi longa demais e, agora como afirma Zaratrusta 'o espírito tendo perdido o próprio mundo, quer conquistar seu mudo."
Haverá tempo?
Vejo a lição do filósofo como um começo, não como obra acaba para análise de qualquer um, que imponha uma lição implícita. Somos espírito o tempo todo e dentre nós coexistem os três estágios que o filósofo apenas alinhava qual será o fim representado pela próxima metamorfose para tudo ao final voltar ao ponto da criança que apenas é capaz de esquecer e precipitar o que realmente valeeu a pena de todo o caminho. É necessário soltar o camelo para jardins verdes, não deixar carregá-lo demais para que não fuja para a solidão do deserto. É ao mesmo tempo necessário soltar o leão em estepes distintas, para ouvir seu rugido de longe, em raros momentos. É mais necessário, todavia, alimentar melhor a criança para que o espírito não se afasta dela.
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